15 de setembro de 2010

Andre Salviano, Confraria dos trouxas

Boa noite, Cinderela

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes



Seu sonho era ser como a bela adormecida e ironias dessa vida, e como a vida sabe ser demasiada sarcástica pra alguns, Aurora era mulher de belos traços e de boa estatura, embora nascida numa família de anões e ter sete irmãos, todos menores que ela.

Moradora do Rio, menina com certa ingenuidade, apesar dos pesares, classe média, e muito protegida pelos pais, que a tratavam como uma princesinha. Até que certo dia depois de muito suas amigas insistirem e seus pais permitirem, ela saiu pra uma noitada em boate de Copacabana, isso após ter completado seus esperados e libertadores dezoito aninhos. Seus pais sempre lhe disseram pra não aceitar bebida de estranhos, e também pra jogar a bebida fora ao voltar do banheiro, coisas de pais preocupados e que sabem como é a noite de cidade grande, mas aquele estranho era tão bonito e a beleza é tão traiçoeira, que lembrar conselho paterno não entrou no cardápio da madrugada.

Longa madrugada. Acordou num motel, na cama o vazio e um bilhete enigmático:

Obrigado pela noite. Você é incrível. Se quiser sua calcinha de volta liga pro número abaixo. Beijos

O corpo dolorido e a sensação de não se lembrar de nada a perturbava, alguns beijos, mãos aqui e ali, tudo muito confuso, nublado, a cabeça latejava. Passou pela recepção, a conta estava paga. O que iria dizer para os pais. E o bilhete sem assinatura, porque as amigas a deixaram sair da boate com ele? E os irmãos, o que diriam? Tantas interrogações, pegou um táxi e voltou pra casa, já com o sol a lhe dar bom dia.

Após o mês que passou de castigo, indo de casa pra faculdade e da faculdade pra casa, sem internet, celular e wii, resolveu que iria conhecer de fato e direito seu príncipe encantado e misterioso, ligou e foi sem calcinha buscar a que ele tinha levado como lembrança.

Alou?
Alô, eu queria falar com o cara que pegou minha calcinha mês passado, sem pedir.
Boa noite, Cinderela! (risos) Resolveu enfim buscar o que te pertence. Saiba que tem muito mais que sua calcinha te esperando.
Isso nós vamos resolver quando eu te encontrar.

Depois do fatídico encontro, que rolou num shopping em Botafogo, o casal passou a namorar, com a permissão dos pais da Aurora e sob certos protestos dos ciumentos sete irmãos, um deles então, não disfarçava o quanto estava zangado.

E foram felizes para sempre – durante trinta e seis meses.



Epílogo

Nos contos de fadas modernos fica cada vez mais difícil desafiar os limites da paixão tida como bioquímica. Então que tenhamos como norte o saudoso Poetinha, e que ele erre vez em quando, porque o que valida a regra são as exceções. Amém.

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dá um pitaco ae. e depois eu prometo q te mando ir à merda