Boa noite, Cinderela
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes

Seu
sonho era ser como a bela adormecida e ironias dessa vida, e como a
vida sabe ser demasiada sarcástica pra alguns, Aurora era mulher de
belos traços e de boa estatura, embora nascida numa família de anões e
ter sete irmãos, todos menores que ela.
Moradora
do Rio, menina com certa ingenuidade, apesar dos pesares, classe média,
e muito protegida pelos pais, que a tratavam como uma princesinha. Até
que certo dia depois de muito suas amigas insistirem e seus pais
permitirem, ela saiu pra uma noitada em boate de Copacabana, isso após
ter completado seus esperados e libertadores dezoito aninhos. Seus pais
sempre lhe disseram pra não aceitar bebida de estranhos, e também pra
jogar a bebida fora ao voltar do banheiro, coisas de pais preocupados e
que sabem como é a noite de cidade grande, mas aquele estranho era tão
bonito e a beleza é tão traiçoeira, que lembrar conselho paterno não
entrou no cardápio da madrugada.
Longa madrugada. Acordou num motel, na cama o vazio e um bilhete enigmático:
Obrigado pela noite. Você é incrível. Se quiser sua calcinha de volta liga pro número abaixo. Beijos
O
corpo dolorido e a sensação de não se lembrar de nada a perturbava,
alguns beijos, mãos aqui e ali, tudo muito confuso, nublado, a cabeça
latejava. Passou pela recepção, a conta estava paga. O que iria dizer
para os pais. E o bilhete sem assinatura, porque as amigas a deixaram
sair da boate com ele? E os irmãos, o que diriam? Tantas interrogações,
pegou um táxi e voltou pra casa, já com o sol a lhe dar bom dia.
Após
o mês que passou de castigo, indo de casa pra faculdade e da faculdade
pra casa, sem internet, celular e wii, resolveu que iria conhecer de
fato e direito seu príncipe encantado e misterioso, ligou e foi sem
calcinha buscar a que ele tinha levado como lembrança.
Alou?
Alô, eu queria falar com o cara que pegou minha calcinha mês passado, sem pedir.
Boa noite, Cinderela! (risos) Resolveu enfim buscar o que te pertence. Saiba que tem muito mais que sua calcinha te esperando.
Isso nós vamos resolver quando eu te encontrar.
Depois
do fatídico encontro, que rolou num shopping em Botafogo, o casal
passou a namorar, com a permissão dos pais da Aurora e sob certos
protestos dos ciumentos sete irmãos, um deles então, não disfarçava o
quanto estava zangado.
E foram felizes para sempre – durante trinta e seis meses.
Epílogo
Nos
contos de fadas modernos fica cada vez mais difícil desafiar os limites
da paixão tida como bioquímica. Então que tenhamos como norte o saudoso
Poetinha, e que ele erre vez em quando, porque o que valida a regra são
as exceções. Amém.
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dá um pitaco ae. e depois eu prometo q te mando ir à merda