22 de novembro de 2007

A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde vc mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato - pequenas atividaes às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente - vc acabou de sair da mina casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto - quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de 5 min atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando uma coisa que não saberemos direito o que é, mas dever ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de se nécessaire (pra quê tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar - vc me agarando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas - mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que vc tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a estranha certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.Talvez céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios aonde deveriam haver palavras, palavras aonde podeia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?Tudo o que sabemos agora é que eu te quero, vc me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes pra fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte - sobretudo, talvez, sorte - quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há mais nada sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo - o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão - mas a vida não tem nenhum sentido se não for pra dar o salto.
O Salto - Texto de Antonio Prata

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dá um pitaco ae. e depois eu prometo q te mando ir à merda